Eu não tinha o direito de existir.
Surgira por acaso, existia como uma pedra, uma planta, um micróbio.
Minha vida se desenvolvia ao acaso e em todos os sentidos.
Lancei um olhar ao meu redor, só via o presente, nada além do presente.
Móveis leves e sólidos, incrustados em seu presente, uma mesa, uma cama, um armário, e eu.
Essa é a verdadeira natureza do presente: tudo o que existe estava ali e o que não exista não estava no presente. O passado não existe.
Agora eu sabia, as coisas são inteiramente o que parece e por trás delas não existe nada.
Aquela coisa se precipitou sobre mim, penetrou em mim, estou pleno dela.
Não é nada, a Coisa sou eu.
A existência, liberada, desprendida, reflui sobre mim. Existo.
Existo, é suave, tão suave, tão lento.
Há uma água espumosa em minha boca. Engulo, desliza em minha garganta. E a água ressurge em minha garganta. Essa água sou eu, a língua sou eu, e a garganta também sou eu. Vejo minha mão sobre a mesa. Ela vive, sou eu.
Com o tempo isso se torna intolerável...
Retiro minha mão, coloco-a no bolso, mas logo sinto a minha mão através do tecido, o calor da minha coxa. Faço saltar imediatamente minha mão do meu bolso. Agora sinto seu peso na ponta do meu braço. Ela existe. Onde quer que a coloque ela continuará a existir, e eu continuarei a sentir que ela existe. Não posso suprimi-la, nem suprimir o resto do meu corpo.
O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que o continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Se pudesse me impedir de pensar!
Não pensar... não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento. Será que não termina nunca?
Meu pensamento sou eu: eis porque não sou posso parar. Existo porque penso e não posso me impedir de pensar. Se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro. O ódio, a repugnância de existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem em mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça...
Meu canivete está sobre a mesa. Por que não?
Me desfiro uma boa canivetada na palma da minha mão. E afinal, o que foi que mudou?
Essa poça de sangue finalmente deixou de ser eu.
Ainda que me encolha em silêncio num canto, não me esquecerei de mim. Estarei aqui, meu peso estará sobre o chão. Eu sou.
Caminho entre as casas, o asfalto sob meus pés existe.
Sou, existo, penso, logo sou. Sou porque penso, por que penso? Já não quero pensar, sou porque penso que não quero ser, penso que eu... porque... aahh!
Seguro o jornal, esse jornal ainda sou eu? Existência contra existência, as coisas existem encostadas umas nas outras.
O coração existe, as pernas existem, a respiração existe, eles existem, a existência agarra meus pensamentos. Tudo está cheio, existência por todo lado, densa, pesada e suave.
Eu, Nada, existido.
(Jean Paul Sartre, em A Náusea).
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